quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Sua localização no site » Outros » Conte sua história » Histórias

17 anos de Campanha
Por que 16 dias?
Lei Maria da Penha
Violência contra a mulher
   - Formas de violência
   - Onde buscar ajuda
Teleconferência
Eventos
Galeria de Fotos
Calendário Feminista
Materiais para download
Parcerias e patrocínios
Edições anteriores
 
Notícias
Artigos
Sala de imprensa
Boletins
 
Conte sua história
Uma vida sem violência
Dados e informações
 
 

Adriana Nogueira Vichi, 29 anos, fotógrafa, mora em São Paulo - SP

“Eu me separei definitivamente em julho de 2006, após seis anos e meio de relacionamento, do qual tenho uma filha. A separação ocorreu de comum acordo, mas com algumas semanas de separação meu ex-marido já demonstrava sinais claros de agressividade para comigo. A violência que eu antes presenciava ser feita por ele a outras pessoas havia ganhado outro foco: eu.

 

Sete meses após a separação, em fevereiro de 2007, aconteceu a primeira agressão, na presença de nossa filha e de minhas duas tias idosas e deficientes que moram comigo. Na ocasião, ele passou por minha casa e me viu sair carregando duas bolsas, sendo que em uma delas havia roupas de meu namorado. Puxou as bolsas de minhas mãos, vasculhou-as, arremessou-as no porta-malas do carro dizendo que seriam queimadas, deu um tranco no braço de uma das tias que é cadeirante, exigiu que eu entrasse no veículo onde estava nossa filha desesperada e dirigiu, perigosamente, até a casa de minha mãe, onde nossa filha foi deixada para que pudéssemos conversar. Saímos de carro pelas ruas, eu no banco de trás do veículo, pois segundo ele, "com as portas travadas, do banco de trás eu não conseguiria escapar". Enquanto a conversa acontecia minha mãe e filha ligavam em meu celular, temendo nunca mais me ver. Nunca vou esquecer o recado deixado por minha filha em meu celular, dizendo: “Dri, você está demorando para voltar. Volta logo e não fica preocupada se você estiver perdida, eu vou te procurar onde você estiver e te trazer para a casa”. A conversa terminou e voltamos para a casa de minha mãe, e ele agiu pelo resto da noite como se nada tivesse acontecido.

 

Depois desse episódio passei a ser procurada de maneira insistente por ele, pessoalmente, por telefone e internet, que exigia a reconciliação, pois sabia que eu estava em um relacionamento sério e estável, demonstrando sua possessividade e autoritarismo, seu ciúme e ódio declarados por qualquer pessoa com quem eu viesse a me relacionar.

 

Nesse período meu ex-marido iniciou um relacionamento, que parecia ser sério e estável. O convívio dele e de sua companheira com nossa filha era constante. Os finais de semana que os três passavam juntos eram cheios de brincadeiras e alegrias, que ficavam claros para mim nas histórias contadas por nossa filha, o que me alegrava e tranqüilizava. Mas, mesmo se relacionando, ele não deixava de me procurar, exigindo que voltássemos, me ameaçando o tempo todo, mostrando que a vida dele seguiria normal, mas a minha não.
  
Dois meses depois, em abril de 2007, tivemos mais uma conversa, quando por mais uma vez neguei a reconciliação, dizendo a ele que "por tudo de bom que tivemos, e pelo bem maior que temos, que é nossa filha, gostaria que seguíssemos como amigos, nos respeitando". Ao falar dessa forma passei a ser ameaçada gravemente, bem como as pessoas do meu convívio. Na ocasião dessa conversa, feita em uma praça pública próxima ao meu local de trabalho, ouvi as seguintes ameaças: "Você escolheu não ficar comigo, agora vai colher as conseqüências"; "Vou ser o diabo em sua vida, sua vida vai virar um inferno"; "Tome cuidado ao andar na rua, você e seu namorado, pois vocês podem sofrer um acidente"; e “Não fique com mais nenhum homem, pois cada pessoa que se aproximar de você vai sofrer, e você vai ser responsável pelo sofrimento dessas pessoas". Perguntei se ele estava me ameaçando, e ameaçando a vida das outras pessoas, e ele me disse: "Não estou ameaçando, estou afirmando".

 

Meu desespero era tão grande, frente a tudo o que estava acontecendo, que adoeci, indo muitas vezes ao Pronto Socorro, com problemas respiratórios que não cediam, pois segundo os médicos “havia a agravante nervosa, um forte stress”.

 

Em abril de 2007 tomei coragem e dei o primeiro passo rumo à Justiça, quebrando o silêncio. Fiz o primeiro Boletim de Ocorrência, em uma Delegacia de Defesa da Mulher. Em maio, quando a primeira audiência foi marcada, meu ex-marido me ameaçou ainda mais, ficando por mais de três horas na calçada do meu trabalho me esperando chegar, fazendo ligações para o meu celular, dizendo que "se eu não retirasse a denúncia eu não chegaria viva à data da audiência". Frente às novas ameaças fiz um novo B.O., em uma delegacia comum perto do meu trabalho, onde o caso foi tratado como mera briga de casal.

 

As ameaças foram feitas durante seis meses, chegando ao ponto de ele não poupar a própria filha e falar abertamente das ameaças na presença dela. Por inúmeras vezes me abriguei em casas de amigos e por duas vezes levei minha filha, protegendo-a das perseguições. Foram meses de tensões constantes, de muito medo sentido por mim, por meus familiares e por meu companheiro, que também foi procurado em sua residência e por telefone por meu ex-marido, que queria a todo custo lhe encontrar.

 

Em 21 de julho de 2007, dia do meu aniversário de 29 anos, ele foi preso em flagrante, por manter minha mãe refém por quase seis horas, imobilizando-a com seus braços, pernas e pés, agredindo-a com tapas e socos na cabeça, mantendo-a o tempo todo com um estilete no pescoço, ameaçando fazer as piores coisas a ela e a mim, exigindo que eu e nossa filha fôssemos para o local, na intenção de fazer uma tragédia completa.

 

Na noite anterior, em 20 de julho, ele invadiu minha residência, onde moro com duas tias idosas e deficientes (uma delas cadeirante e a outra deficiente auditiva e mental), arrombou portas, agrediu as duas e foi embora, prometendo que no dia seguinte voltaria para fazer uma desgraça. Na semana anterior, em 15 de julho, invadiu a residência de minha mãe e permaneceu no local falando à filha que iria se matar, que era a última vez que ela via o pai. E falava o mesmo comigo por telefone, e eu ouvia a nossa filha chorar. O martírio dessa noite se estendeu por mais de uma hora. Ao sair de lá ligou em meu celular, de um orelhão do bairro, e disse que “se fosse preso ou internado, assim que saisse voltaria e acabaria com todos, inclusive com o companheiro de minha mãe, que está doente e completamente paralisado em uma cama”.

Reiterei à Justiça a necessidade de receber as Medidas Protetivas de Urgência, pedidas primeiramente em abril de 2007 e que até então não havia recebido. Até hoje, setembro de 2007, não recebi um parecer sobre o assunto. Sorte que eu conheci uma advogada que trabalha em uma ONG feminista e que muito tem me ajudado e orientado.

Cabe à mulher vítima de violência dar o primeiro passo, amparando-se sempre na Lei. Muitos são os obstáculos a serem enfrentados e, tomara, vencidos, como medo, insegurança, silêncio, vergonha, tristeza.  Sentir medo é natural e inevitável. O medo passa a fazer parte do nosso dia-a-dia e do dia-a-dia das pessoas que convivem conosco, nossos familiares, filhos, amigos, colegas de trabalho. Mas não podemos nos acostumar a ele, não podemos viver reféns. O medo foi, e ainda é, meu grande obstáculo. Ainda sinto medo de que as pessoas a minha volta - mãe, filha, tias, amigos - sofram mais do que já sofreram, da Lei não ser aplicada efetivamente, da morosidade, da impunidade”.
 

Outras histórias

Marizeth Ribeiro da Costa de Miranda, 42 anos, professora, mora no Gama - DF

Iara Pires, 32 anos, nasceu em Goiás e mora nos Estados Unidos - EUA

Edivânia Araújo dos Santos, 28 anos, manicure, mora em Salvador - BA

Ângela Cândida Chaves, 44 anos, professora, mora em João Pessoa - PB

Marta Q, 53 anos, empresária, mora em São Paulo - SP

 
 
AGENDE AÇÕES EM GÊNERO CIDADANIA E DESENVOLVIMENTO - AGENDE - www.agende.org.br - agende@agende.org.br
SCLN 315 Bloco B Sala 101 - Asa Norte - CEP: 70774-520 - Brasília DF Brasil - tel (55-61) 3273-3551 fax (55-61) 3273-5801