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Maria Iracema Souza dos Santos, 42 anos, vendedora, mora em Salvador - BA
“Convivi durante 19 anos com meu ex-companheiro, com quem tive cinco filhos. Os problemas começaram em 2001, quando invadiram minha casa e eu fui baleada na perna. Tive várias complicações de saúde por causa disso e fiquei durante muitos anos numa cama e me locomovendo numa cadeira de rodas. Já não tinha mais qualquer esperança de um dia voltar a andar.
Para piorar a situação, meu marido passou a me tratar com preconceito, por causa da minha condição de deficiente, e a crueldade continuou. Eu era constantemente violentada física, moral e psicologicamente. Ele jogava na minha cara que eu não prestava pra nada, que eu era uma inútil e que eu vivia às custas de amigos e parentes.
Ele já tinha saído de casa uma vez, mas, em 2003, quando ficou sabendo que eu havia conseguido uma casa do Projeto Viver, ele apareceu e nós voltamos a morar juntos novamente. Mas nada tinha mudado. Ele continuava o mesmo. Era agressivo, apresentava conduta moral suspeita e não dava um tostão para as despesas domésticas. Ele bebia muito, xingava, humilhava a mim e a nossos filhos e ainda por cima nos ameaçava de morte.
Até que eu resolvi procurar ajuda e fui atendida no Centro de Referência Loreta Valadares, em Salvador. Não me esqueço da data: 28 de agosto de 2006. Quando eu cheguei lá, eu estava fazendo uso de medicação psiquiátrica, apresentava somatizações no corpo, estava muito fragilizada, debilitada mesmo e bastante perdida. Eles me encaminharam para atendimento psicológico e, com as sessões, eu fui recuperando minha auto-estima. Comecei a reorganizar minha vida, a fazer fisioterapia. Hoje já consigo andar com auxílio de muletas, o que é uma vitória enorme para quem não conseguia se levantar da cama sem ajuda de alguém.
Dei queixa do meu marido na Delegacia da Mulher. Ele foi afastado da nossa casa e o processo contra ele está em tramitação no Segundo Juizado Especial Criminal. Consegui a guarda dos meus filhos e pensão determinada pela Justiça.
Hoje, sinto como se eu tivesse renascido. Aprendi que, como qualquer ser humano, como qualquer cidadão, eu tinha meus direitos. E me incomoda saber que existem muitas mulheres vivendo esse drama dentro de casa. Por isso, comecei a trabalhar na comunidade como multiplicadora, informando sobre os direitos das mulheres e ainda participo, com muito orgulho, dos grupos de discussão da Rede de Atenção a Mulheres Vítimas de Violência, em Salvador”.
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